Saúde mental pede atenção o ano inteiro

Cuidar da mente é cuidar da vida, mas as pessoas ainda têm resistência em buscar ajuda e tratamento para os problemas emocionais e mentais. Equipes tóxicas de trabalho podem ser uma das causas

Depressão, ansiedade e fobias. Uma a cada quatro pessoas vai sofrer de algum transtorno mental durante a vida, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Tradicionalmente, a virada do ano é um momento de recomeço e de lanos para o futuro. Mas, para muitos, o período de fim de ano e início de um novo pode causar ou aumentar a ansiedade pela frustração de não ter cumprido metas ou anseio por mudanças. “Quando esse estado de fragilidade atinge níveis comprometedores, a procura por ajuda profissional é de extrema importância”, adverte a psicóloga do Hospital do Coração Anis Rassi, Maria Cristina Rassi Garcia.

Cuidar da mente é cuidar da vida. “As pessoas ainda têm resistência em buscar ajuda e tratamento para os problemas emocionais e mentais, comprometendo todos os aspectos da vida do indivíduo. Ainda existem muitos preconceitos e falta de informação sobre adoecimento emocional”, explica.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que o Brasil não vai bem em relação à Saúde Mental. Os números mostram que 5,8% da população (12 milhões de pessoas) sofrem de “depressão” (maior taxa da América Latina, a 2ª maior das Américas e a 5ª do mundo). Em relação aos “transtornos de ansiedade”, o Brasil é o recordista mundial, com 9,3% da população com alguns desses problemas.

E quando o problema em questão é o “suicídio”, a situação também é preocupante: a ocorrência de 12 mil suicídios anuais no País faz com que a sociedade brasileira ocupe a 8ª colocação, no planeta, em relação à contagem absoluta de mortes por autoextermínio.

Os números justificam por que razão a campanha Janeiro Branco é tão importante. Criada em 2014 pelo psicólogo mineiro Leonardo Abrahão visa chamar a atenção para a saúde mental e promover conhecimento e compreensão sobre o tema. No entanto, Maria Cristina esclarece que, apesar de a campanha acontecer apenas durante um mês, é importante que a saúde mental esteja em evidência durante o ano todo.

Segundo ela, o preconceito e a exclusão que cercam os pacientes de doenças mentais devem ser combatidos com informações claras e bem fundamentadas. “O universo da saúde mental envolve inúmeros aspectos relacionados às emoções, relacionamentos, vínculos afetivos e sociais. É importante sensibilizar o poder público e a sociedade para que reconheçam a gravidade da tendência mundial ao adoecimento emocional do ser humano”, diz.

Existe muito desconhecimento em relação às doenças mentais, especialmente sobre a depressão. “Por isso, precisamos tratar esse assunto de forma ampla, levando informação à sociedade, por um lado, e assistência profissional, pelo outro, acolhendo com solidariedade as pessoas afetadas”, afirma.

“Devemos ficar atentos aos sintomas que nos incapacitam ou geram sofrimento intenso e duradouro desencadeados por um fato gerador desta emoção. É importante evitar o isolamento e encontrar coragem para procurar um profissional da área de saúde mental, para o diagnóstico e tratamento corretos. E é fundamental que familiares e instituições reduzam o preconceito e reconheçam que a doença mental é uma doença real e, como tal, deve ser tratada”, argumenta.

Seguem dicas para prevenir e melhor lidar com os problemas durante o processo terapêutico:

– Praticar atividades físicas;

– Manter uma alimentação saudável;

– Fazer aquilo que lhe proporciona prazer;

– Evitar álcool e drogas.

Possíveis causas

A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho enumera que algumas condições de trabalho podem conduzir a riscos psicossociais e afetar a saúde mental. Entre elas volumes de atividades ou limitações temporais excessivas; exigências contraditórias; falta de clareza quanto ao papel do trabalhador; comunicação deficiente; uma mudança organizacional mal gerida.

Para a mentora de Gestão de Carreira e diretora da APOIO Consultoria de Negócios, Dilze Percílio, é impossível falar de saúde mental sem mencionar o mundo corporativo. “A pessoas passam mais tempo do seu dia no trabalho que em casa com a família ou fazendo qualquer outra atividade. É extremamente relevante discutir esse assunto a partir da cultura das organizações e dos líderes das empresas”, assegura.

Segundo Dilze, existem pesquisas que mostram que 80% dos executivos que saem das empresas fazem isso por causa do líder que têm. “Nesse contexto, o gestor é quem vai desenvolver o liderado ou adoecê-lo. E, infelizmente, o número de líderes tóxicos é cada vez maior”, explica.

O conceito de liderança tóxica, de acordo com a especialista, é discutido no livro de Alessandra Assad, no qual a autora mostra como uma cultura organizacional doente e doentia, junto à uma liderança tóxica, vai adoecer os colaboradores. “Uma cultura organizacional doente permite que o líder tóxico se prolifere, lhe dando cada vez mais poder pela conduta incorreta. Uma maçã podre apodrece todas as maçãs. Consequentemente surgem os problemas emocionais e a saúde mental sofre abalos”, argumenta.

Um funcionário feliz e saudável mentalmente é mais propenso a prosperar na vida pessoal e no trabalho, desempenhando suas funções com qualidade e ótima relação com a equipe. Assim, para a empresa que procura atingir seus objetivos, é importante se preocupar com a saúde mental dos trabalhadores e proporcionar um ambiente sadio, interativo e livre de julgamentos para que cada um se posicione da melhor maneira possível.