No Rastro das Cargueiras: documentário mostra cotidiano de catadores de recicláveis que utilizam bicicletas modificadas para trabalhar

Obra antropológica está disponível para ser assistida gratuitamente e on-line até o dia 6 de novembro e ganhou 2º lugar na Mostra de Filmes Etnográficos do XII Prêmio Pierre Verger, integrada à 32ª RBA – Reunião Brasileira de Antropologia

A lata de refrigerante vazia pode ser só lixo na visão de quem a descarta, mas para os catadores, é a matéria-prima que os confere renda para sobreviver diante do desemprego, desalento econômico e dificuldades sociais, sobretudo, neste período de incertezas trazido pela pandemia do novo Coronavírus. É sobre isso (e muito mais) que trata o média metragem “No Rastro das Cargueiras”. Dirigido pela professora do curso de Cinema e Mídias Digitais do Centro Universitário IESB, Carol Matias, o documentário retrata a vida de quem utiliza bicicletas adaptadas para coleta de recicláveis (as chamadas cargueiras).

A obra que traz um olhar peculiar sobre um grupo de catadores oriundos de Iguatu, no Ceará, que veio para Brasília em busca de uma mudança em suas vidas. “Nosso filme busca retratar essa história comum, mas pouco evidente no cotidiano da capital federal”, ressalta a diretora. A montagem ganhou o 2º lugar neste ano do Prêmio Pierre Verger, na Mostra de Filmes Etnográficos, e pode ser assistido on-line pelo site https://ppv.abant.org.br/no-rastro-das-cargueiras/, até o dia 6 de novembro, quando acabam as sessões de debate do prêmio. A mostra faz parte da 32ª RBA – Reunião Brasileira de Antropologia.

O objetivo do filme é mostrar o dia a dia dos catadores para além do trabalho. De acordo com Carol, muitas vezes subentende-se que uma pessoa em vulnerabilidade social é uma pessoa que busca apenas a sobrevivência. “No Rastro das Cargueiras mostra que, além disso, todos têm opiniões, visões de mundo, podem contar a própria história e experimentar a cidade e a vida de uma maneira plena mesmo com as adversidades”, analisa.

Produção contínua

A produção do filme começou há quatro anos. Segundo a diretora, a ideia de fazer o filme veio paralela a uma pesquisa em Antropologia no contexto de seu mestrado. “Conforme eu conhecia a história das pessoas, mais acreditava que tanto havia material para discussões sobre direito à cidade, à moradia, ao trabalho, como também seria urgente elaborar uma imagem mais sensível sobre o cotidiano de minhas interlocutoras”, diz.

Para a professora a pesquisa realizada para o filme, ampliou sua perspectiva. “Minha perspectiva sobre a cidade, sobre o consumo, sobre a sustentabilidade, tudo isso mudou”, reconhece. Para ela, as pessoas que se tornaram personagens do filme permitiram a ela um olhar mais aproximado para suas histórias, o que a ajudou a compreender um pouco mais dos abismos sociais que existem em Brasília.

Além disso, ela criou relações de amizade e de confiança. Para ela, esta oportunidade de exibir o filme e começar a ter retorno do público permite a reflexão e a eventual tomada de ações para a promoção de uma sociedade mais justa. “É o que me motiva a continuar no caminho do cinema documentário”, completa.