Dom Adriano Hypólito enfrentou a violência da ditadura militar sem abandonar seu povo. Tentaram humilhá-lo. Acabaram transformando-o em símbolo de coragem, fé e defesa da dignidade humana.
Em 22 de setembro de 1976, o Brasil assistiu a um dos episódios mais simbólicos da perseguição contra setores da Igreja Católica durante a ditadura militar. O alvo não era um guerrilheiro, um líder partidário ou um sindicalista. Era um bispo.
Dom Adriano Mandarino Hypólito (1918–1996), bispo da Diocese de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, no estado do Rio de Janeiro, foi sequestrado por seis homens armados, encapuzado, espancado, despido e teve todo o corpo pintado de vermelho com tinta spray. Em seguida, foi abandonado em um matagal. Seu Fusca foi roubado e explodido diante da sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no Rio de Janeiro. A mensagem era clara: humilhar aquele homem e intimidar uma Igreja que denunciava a tortura, os desaparecimentos forçados e a violência praticada pelo Estado.
Conhecido como “O Profeta da Baixada”, Dom Adriano havia feito uma escolha simples e profundamente evangélica: caminhar ao lado dos mais pobres. Em uma região marcada pela desigualdade, transformou a Diocese de Nova Iguaçu em um espaço de acolhimento aos mais vulneráveis, de proteção a perseguidos políticos e de defesa dos direitos humanos.
Essa opção pastoral incomodava. Em plena Guerra Fria, bastava defender os direitos humanos, denunciar injustiças ou acolher perseguidos para que alguém fosse rotulado de “subversivo” ou “comunista”. Dom Adriano foi alvo dessas acusações, jamais comprovadas. O objetivo era silenciá-lo.
Não conseguiram.
Após o sequestro, voltou imediatamente para Nova Iguaçu. Não pediu transferência, não abandonou sua missão e não se deixou intimidar.
Três anos depois, em 1979, uma bomba destruiu o altar e o sacrário da Catedral de Santo Antônio de Jacutinga, sede da Diocese de Nova Iguaçu. Na manhã seguinte, Dom Adriano celebrou a missa entre os escombros. Dias depois, mais de dez mil pessoas participaram de uma grande procissão em solidariedade ao bispo e em defesa da paz. A tentativa de espalhar o medo produziu exatamente o efeito contrário: fortaleceu ainda mais sua liderança moral.
Questionado sobre por que permanecia na Baixada Fluminense, respondeu com serenidade:
“Eu não ia dar esse gosto aos meus sequestradores.”
Dom Adriano permaneceu à frente da Diocese de Nova Iguaçu até sua aposentadoria, em 1994, e continuou vivendo na Baixada Fluminense até sua morte, em 13 de agosto de 1996.
Décadas depois, a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro apontou o então capitão do Exército José de Ribamar Zamith como um dos suspeitos de participação no sequestro. Seu nome também apareceria posteriormente nas investigações sobre o atentado do Riocentro. Mas, para além da autoria do crime, permanece a força de seu testemunho.
Tentaram pintá-lo de vermelho.
Acabaram transformando-o em símbolo.
A história de Dom Adriano não pertence apenas à Igreja Católica nem à Baixada Fluminense. Ela pertence à memória do Brasil. É a lembrança de que a coragem pode sobreviver à violência, de que a fé pode resistir ao medo e de que a defesa da dignidade humana jamais deveria ser tratada como crime.
Há homens que atravessam a história pelo poder que exercem. Outros permanecem pela coragem com que enfrentaram o poder. Dom Adriano pertence a essa segunda categoria.


