Henrique Pinheiro *
* Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.
Na noite de 30 de abril de 1981, véspera do Dia do Trabalhador, o Brasil assistiu a um dos episódios mais reveladores dos anos finais da ditadura militar.
Por volta das 21h20, enquanto mais de 20 mil pessoas participavam de um grande show de música popular brasileira no Riocentro, na Barra da Tijuca, uma explosão ocorreu dentro de um automóvel Puma estacionado no local.
No veículo, estavam o sargento Guilherme Pereira do Rosário e o capitão Wilson Luiz Chaves Machado. Rosário morreu na hora. Wilson Machado sobreviveu gravemente ferido.
O detalhe é que não se tratava de militares comuns. Wilson estava lotado no DOI-CODI do I Exército, um dos principais órgãos de repressão da ditadura. Já Rosário possuía treinamento especializado em explosivos. A presença de ambos no local, transportando artefatos explosivos, levantou desde o primeiro momento sérias dúvidas sobre a versão oficial apresentada pelo regime.
Pouco depois, uma segunda bomba foi encontrada nas proximidades do complexo e desativada.
A versão oficial divulgada imediatamente procurou atribuir o episódio a grupos de esquerda. O Inquérito Policial Militar seguiu essa linha e concluiu que os militares teriam sido vítimas de um atentado terrorista.
Mas a narrativa começou a ruir quase imediatamente.
As evidências apontavam para outra direção. Os explosivos estavam em poder dos próprios agentes da repressão. O atentado teria sido planejado por setores da chamada linha-dura militar que resistiam ao processo de abertura política iniciado durante o governo do general João Figueiredo.
A lógica era conhecida. Um atentado com grande número de vítimas poderia ser atribuído à oposição, criando o ambiente necessário para justificar uma nova onda repressiva e interromper a lenta transição democrática.
Se a bomba tivesse sido colocada dentro do pavilhão ou em meio ao público, o resultado poderia ter sido uma tragédia de enormes proporções. Centenas de pessoas poderiam ter morrido ou ficado feridas naquela noite.
O fracasso da operação impediu que esse plano fosse adiante.
O episódio expôs as divisões internas do regime e revelou ao país que ainda existiam setores dispostos a recorrer ao terrorismo para preservar a ditadura.
Entre os nomes mais associados ao período mais duro da repressão estavam o general Newton Cruz e o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, símbolos de uma estrutura que durante anos utilizou a perseguição política, a censura, a prisão ilegal, a tortura e o desaparecimento de opositores como instrumentos de Estado.
O caso Riocentro tornou-se um marco porque desmontou diante da opinião pública a narrativa de que a violência política era obra exclusiva dos adversários do regime.
Quarenta e cinco anos depois, Wilson Luiz Chaves Machado continua vivo. Foi promovido pelo Exército, passou para a reserva e jamais foi condenado pelo atentado.
A impunidade que marcou o caso é parte de uma ferida ainda aberta da história brasileira. Diferentemente de outros países da América Latina, o Brasil nunca responsabilizou de forma ampla os agentes envolvidos em crimes cometidos durante a ditadura.
Mas o atentado fracassado produziu um efeito inesperado.
A bomba que deveria fortalecer a linha-dura acabou acelerando o desgaste do regime. O episódio ampliou as pressões pela redemocratização e fortaleceu aqueles que defendiam o retorno pleno das liberdades democráticas.
O Riocentro permanece como um alerta histórico.
Quando setores do Estado acreditam estar acima da lei e da democracia, toda a sociedade corre perigo.
A bomba que deveria atingir a democracia acabou explodindo no colo da própria ditadura.
Foto: mídias sociais.


