Henrique Pinheiro *
* Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.
Há 22 anos morria Leonel Brizola. Mas seu legado e suas ideias permanecem mais atuais do que nunca.
Talvez essa frase resuma melhor sua vida do que qualquer biografia.
Poucos homens públicos brasileiros foram tão perseguidos. Antes mesmo de a reforma agrária se tornar prioridade do governo de João Goulart, Brizola já desapropriava terras no Rio Grande do Sul.
Enfrentou grandes empresas estrangeiras ao encampar concessionárias de energia e telefonia. Bastou isso para se tornar um homem temido por interesses poderosos.
Em 1961, liderou a Campanha da Legalidade e ajudou a garantir o respeito à Constituição. Três anos depois, veio o golpe, o exílio e anos longe do Brasil.
Mas nem assim conseguiram calá-lo.
Quando voltou, enfrentou uma nova batalha. Em 1982, tentaram roubar sua vitória na eleição para o governo do Rio de Janeiro. A fraude da Proconsult só foi derrotada porque foi denunciada a tempo.
Os ataques nunca ficaram restritos à política. Sua esposa, Neusa, carregou o peso do exílio e das perseguições. Sua família também foi atingida. Parecia que era preciso destruir o homem público pela dor da vida privada.
Na segurança pública, Brizola também foi incompreendido. Nunca defendeu a omissão no combate ao crime. Defendia inteligência policial e o enfrentamento das grandes organizações criminosas, mas recusava transformar as favelas em campos de batalha, onde quase sempre morrem os mais pobres e, no dia seguinte, outros ocupam o lugar dos que caíram.
Sua maior arma contra o crime tinha outro nome: CIEPs.
Brizola acreditava que uma escola de tempo integral, com educação, cultura, esporte e alimentação, salvava mais vidas do que qualquer operação espetaculosa. O Estado precisava chegar antes do tráfico.
Hoje, muitos desses CIEPs estão abandonados. E talvez isso diga muito sobre as escolhas que fizemos como sociedade.
Nos últimos anos de sua vida, Brizola ainda enfrentou a dor da incompreensão política. Viu seu protagonismo ser ofuscado e muitas de suas ideias serem esquecidas.
Concordando ou não com suas posições, uma verdade permanece.
Quanto mais tentaram derrubá-lo, mais seu nome resistiu ao tempo.
Como ele próprio dizia:
“Sou igual à massa de pão. Quanto mais batem, mais eu cresço.”
Foto (Acervo de família): João Pinheiro Neto (pai de Henrique Pinheiro), no comício da Central do Brasil, em março de 1964, com Leonel Brizola, o líder sindical Clodesmidt Riani e Miguel Arraes.
