Henrique Pinheiro *
* Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.
O Dia do Trabalhador nasceu do conflito. Não foi concessão. Foi conquista arrancada nas ruas, com greve, repressão e sangue, em Chicago, em 1886, no episódio que ficaria conhecido como Haymarket Affair.
Ali, trabalhadores exigiam o básico: trabalhar menos para viver mais. Naquele tempo, o trabalho era desregulado. Jornadas de 12, 14, até 16 horas. Sem descanso, sem proteção, sem limite. Acidentes eram parte da rotina e responsabilidade de ninguém. Quem não aceitava, era substituído. Era simples assim.
No Brasil, o atraso era maior. Até 13 de maio de 1888, com a Abolição da Escravidão no Brasil, a base da economia ainda era a escravidão. Enquanto o mundo começava a discutir direitos, aqui ainda se discutia liberdade.
E quando veio a abolição, veio sem inclusão. Libertou-se sem integrar. Sem terra, sem renda, sem acesso ao trabalho formal, milhões ficaram à margem.
A industrialização só ganhou força no Brasil a partir dos anos 1930, com a reorganização do Estado.
É nesse momento que surge Getúlio Vargas como figura central.
A criação da Consolidação das Leis do Trabalho, em 1º de maio de 1943, não foi um detalhe. Foi uma mudança estrutural.
. Pela primeira vez, o Estado brasileiro impunha regras à relação entre capital e trabalho.
Não era generosidade. Era necessidade.
Sem regras, não havia estabilidade. Sem estabilidade, não havia crescimento.
Mas esse modelo nunca chegou plenamente ao campo.
Décadas depois, João Goulart, herdeiro político de Vargas, tentou corrigir essa distorção. A proposta de reforma agrária não era apenas redistribuição de terra.
Era a tentativa de integrar milhões de brasileiros ao sistema econômico, criando uma base real de trabalho e cidadania.
As elites reagiram. E, em 1964, com o Golpe de Estado no Brasil, essa agenda foi interrompida. Não adiada. Interrompida.
O Brasil seguiu moderno na cidade e arcaico no campo.
Hoje, o passado volta disfarçado de novidade.
A discussão sobre a jornada 6×1 parece técnica, mas é brutal na essência.
Quantos dias da sua vida pertencem ao trabalho.
E quantos ainda podem ser chamados de seus.
Essa é a pergunta real. Não é Meta Plataforma.
As grandes empresas de tecnologia, como Google, Amazon e Microsoft, já vêm reduzindo quadros, automatizando funções e redesenhando suas estruturas.
O motivo não é a crise. É a eficiência tecnológica.
A inteligência artificial começa a ocupar o espaço do raciocínio, da análise, da decisão. O que antes era humano passa a ser replicável.
Ao mesmo tempo, cresce um modelo que ignora completamente a lógica construída ao longo do século XX. A chamada uberização, representada por empresas como a Uber Technologies.
Sem vínculo. Sem proteção. Sem estabilidade.
O trabalhador vira prestador. Assume o risco, mas não participa do resultado.
O sistema que levou décadas para ser construído começa a perder relevância.
E o paradoxo se impõe.
Nunca tivemos tanta tecnologia, tanta capacidade de produzir riqueza. E nunca o trabalho foi tão incerto.
O Primeiro de Maio já foi símbolo de conquista.
Hoje, é um alerta.
Porque a pergunta mudou.
Antes, era quanto trabalhar.
Agora, é se haverá trabalho.
O trabalho não é só renda. É identidade. É pertencimento. É estrutura. Sem ele, o risco não é apenas o desemprego.
É a desorganização da sociedade.
O século XX lutou por direitos no trabalho. O século XXI talvez tenha que lutar por algo mais básico.
O direito de viver, mesmo quando o trabalho deixar de existir.


