Henrique Pinheiro *
* Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.
Há pessoas que transformam a própria dor em ressentimento.
Betinho fez exatamente o contrário.
Transformou a dor em solidariedade.
Herbert José de Souza nasceu em 3 de novembro de 1935, em Bocaiuva, Minas Gerais. Desde criança conviveu com a hemofilia, uma doença hereditária que dificultava a coagulação do sangue e impunha limitações permanentes à sua vida.
Mas nunca permitiu que a doença definisse quem ele era.
Ainda jovem, destacou-se pelo compromisso com a justiça social. Participou da Juventude Universitária Católica e, mais tarde, ajudou a fundar a Ação Popular, movimento que buscava ampliar a participação política e combater as profundas desigualdades brasileiras.
O golpe militar de 1964 interrompeu esse caminho.
Como tantos brasileiros, Betinho passou a ser perseguido pelo regime.
Foi obrigado a deixar o país e viveu anos de exílio, passando pelo Chile, pelo Canadá e pelo México.
Longe da família e da própria terra, acompanhou à distância um dos períodos mais difíceis da história brasileira.
Com a anistia, voltou ao Brasil.
Poderia ter escolhido uma vida discreta.
Poderia ter se afastado da vida pública.
Escolheu fazer exatamente o contrário.
Em 1981 fundou o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), dedicado à produção de conhecimento e ao fortalecimento da cidadania.
Acreditava que democracia não se resume ao voto.
Democracia também significa combater a desigualdade, garantir direitos e permitir que todos tenham condições de viver com dignidade.
Nos anos 1990, ao percorrer o país, Betinho enxergou uma realidade que muitos preferiam ignorar.
Milhões de brasileiros conviviam diariamente com a fome.
Famílias inteiras não sabiam se haveria comida na mesa no dia seguinte.
Para ele, aquilo não era uma fatalidade.
Era uma injustiça.
Foi então que criou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.
A campanha rapidamente mobilizou o Brasil.
Escolas, igrejas, universidades, sindicatos, empresas e milhões de cidadãos passaram a arrecadar alimentos e organizar redes de solidariedade.
Poucas iniciativas conseguiram unir tantos brasileiros em torno de um objetivo comum.
Foi nesse contexto que nasceu uma das frases mais conhecidas da história recente do país:
“Quem tem fome tem pressa.”
Não era apenas um slogan.
Era um chamado à consciência.
Um lembrete de que a fome não pode esperar discursos, disputas políticas ou promessas futuras.
Enquanto isso, Betinho enfrentava outro desafio.
Por causa do tratamento da hemofilia, contraiu HIV em uma transfusão de sangue contaminado.
Também foi infectado pelo vírus da hepatite C.
Mesmo diante dessas adversidades, recusou-se a desistir.
Transformou sua própria experiência em mais uma luta pela saúde pública, pela dignidade dos pacientes e pelo combate ao preconceito.
Sua vida tornou-se um exemplo de coragem.
A tragédia também atingiu sua própria família.
Seus irmãos, o cartunista Henfil e o músico Chico Mário, igualmente hemofílicos, morreram em consequência das complicações relacionadas à AIDS.
Ainda assim, Betinho jamais perdeu a capacidade de acreditar nas pessoas.
Para ele, solidariedade não era caridade.
Era cidadania.
Era responsabilidade coletiva.
Era a demonstração de que uma sociedade só é verdadeiramente democrática quando ninguém é deixado para trás.
Betinho faleceu em 9 de agosto de 1997, aos 61 anos.
Partiu cedo.
Mas deixou um legado que continua inspirando gerações.
Em tempos marcados pela indiferença e pela polarização, sua mensagem permanece atual.
Combater a fome, reduzir as desigualdades e defender a dignidade humana não são tarefas de um único governo nem de um único partido.
São compromissos permanentes de toda a sociedade.
Betinho mostrou que uma única pessoa pode mobilizar milhões.
Que a solidariedade também transforma a história.
E que um país só será verdadeiramente grande quando ninguém precisar sentir fome.
Seu legado continua vivo toda vez que alguém estende a mão ao próximo.
Porque cuidar das pessoas continua sendo a mais poderosa forma de transformar o Brasil.

