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Qualidade do acervo do MAB estará refletida na primeira mostra

Com um olho na torcida pelo recuo da pandemia da Covid-19 e outro no centenário da Semana de Arte Moderna (Semana de 22, em São Paulo), que será celebrado em fevereiro do ano que vem, o Museu de Arte de Brasília (MAB) apronta seu acervo de mais de 1.400 obras de arte contemporânea para reinauguração na quarta-feira, 21 de abril, data do aniversário da capital federal.

“Se formos pensar nos acervos do MAB e do Museu Nacional juntos, temos hoje, em Brasília, uma das principais reservas de arte do país, capaz de mostrar a evolução das artes visuais desse país”,

Bartolomeu Rodrigues, secretário de Cultura e Economia Criativa

PRIMEIRAS EXPOSIÇÕES

É desse acervo do MAB que saíra as próximas exposições, como a de abertura, assim que haja condições sanitárias de segurança para a visitação pública.

“As diretrizes da curadoria serão a valorização do acervo do Museu, e o estudo e difusão da arte brasiliense, tanto por meio da exposições de longa duração ou permanentes, quanto por meio das mostras temporárias, que devem seguir eixos temáticos no modelo dos grandes museus nacionais franceses e internacionais, como o Museu d´Orsay e o Metropolitan Museum de Nova York”, conta o gerente do MAB e também artista plástico, Marcelo Gonczarowska.

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Marcelo garante que o grande acervo de arte nacional continuará a ser prestigiado. Além da exposição sobre a Semana de 22, prevista para o segundo semestre de 2022, a reabertura para a visitação pública encontrará uma mostra da história da arte do DF. Adianta também que o museu vai priorizar pesquisa sobre suas coleções e sobre a arte distrital, “para funcionar como um polo para pesquisadores e interessados no assunto”.

“Para essa reabertura, o MAB contou com a generosidade de colecionadores, designers e artistas para completar lacunas na coleção. Entre obras de arte e móveis, o museu recebeu doações que beiram os R$ 350 mil”, relata.

A diretora do MUN, Sara Seilert, lembra da vocação do MAB em termos de “arte popular relevante”. Conta que o escritor, poeta e crítico de arte, um dos fundadores do neoconcretismo, Ferreira Gullar, que foi o primeiro diretor da Fundação Cultural, órgão que precedeu a Secec na gestão dos equipamentos de cultura do GDF, manifestou o desejo de construir um museu de arte popular em Brasília.

“A coleção que ele reuniu desde o início, com a arte do povo nordestino que veio para Brasília, foi patrimonializada no MAB quando o

museu foi inaugurado”.

Sara destaca ainda as aquisições feitas pelo MAB nos Salões de Artes Plásticas que incentivaram a produção em artes plásticas dos anos 1960 até 2000.

A primeira diretora do MAB, a gravurista Lêda Watson fala com emoção do aguardado retorno do acervo ao espaço da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) no edifício adaptado do antigo restaurante do Anexo do Brasília Palace, depois de 14 anos fechado. O MAB fica próximo ao Palácio da Alvorada, na orla do Lago Paranoá, e acaba de ser inteiramente reformado com a melhor tecnologia para espaços museais.

“É uma emoção muito grande ver o espaço reaberto. Há obras muito importantes desde a primeira metade do século passado, com representantes da Semana de 22, até os dias de hoje. Convidaria o público a conhecer o conjunto do acervo quando da reabertura para visitação, principalmente a juventude que ficou 14 anos sem poder conhecer essas obras”, diz Lêda.

Lêda foi coordenadora de museus da Secec por mais de seis anos na década de 1980. O acervo do MAB é recheado de obras-primas entre pinturas, desenhos, gravuras, esculturas, fotografias, instalações e registros de performances.

Curador Independente, com notório saber em plásticas, teoria e história da arte e arte-educação, Wagner Barja frisa a vocação do MAB para a história da arte contemporânea, com registros de performances, videoarte, arte computacional e instalações”.

“Quem quiser contar a história da arte brasileira entre os séculos 20 e 21 inevitavelmente vai precisar passar pelo MAB, pois o acervo conta com obras dos mais renomados aristas desse período”.

A artista Suyan de Mattos aposta na reabertura do espaço como uma oportunidade para o público visitar, conhecer e estudar artistas visuais que circularam e ainda circulam por várias poéticas contemporâneas deste a década de 1950 até anos 1990. Ela, junto com Mario Jardim e sob a curadoria de Barja, apresentou um trabalho sobre poesia visual a partir dos poemas de Gregório de Matos, “Relevo” e “Cachaça”.

ECLÉTICO E HÍBRIDO

O artista Bené Fonteles cujo currículo abrange, além das artes plásticas, os ofícios de jornalista, editor, escritor, poeta e compositor – entende que “o acervo do MAB tem um perfil muito eclético e hibrido.

“Ele documenta a passagem da arte moderna no país para a arte contemporânea. Essa seria a definição mais perto do exato. O acervo tem uma pintura de Volpi dos anos de 1940, figurativa, do tempo que ele pintava os arredores de São Paulo”.

Bené Cita também a presença, na coleção, de obras figurativas e abstratas da década de 1960 e 1970 – Aldemir Martins, Arcangello Ianelli, Iberê Camargo, Tomie Ohtake, Ligia Pape, Ubi Bava, Franz Kracjberg, entre tantos.

Disposto a traçar uma linha do tempo, Bené narra que o acervo chega aos anos de 1980 com obras em papel, entre gravuras e desenhos de artistas contemporâneos como Delmônica, Anna Leticia, Maria Bonomi, Fayga Ostrower. “A nata da arte gravada no Brasil”, sintetiza.

Entre os artistas mais contemporâneos, nomeia Cildo Meireles, Ernesto Neto, Tunga, Mario Cravo Neto, Miguel Rio Branco, Leda Catunda e Leonilson.

“O acervo tem todos os artistas importantes que viveram em Brasília desde os anos de 1960, como Athos Bulcão, Rubem Valentim, Glênio Bianchetti, Douglas Marques de Sá, chegando a Ralph Gehre, Eliezer Sturzm, Elder Rocha, Helena Lopes, Lêda Watson, Miquel Simão, Rômulo Andrade, Wagner Barja e outros”, diz.

Bené acredita no potencial do MAB também para implementar um trabalho educativo “que seja dinâmico, criativo, interativo e muito atuante com as escolas e comunidades do DF”.  Ele sugere que o museu abra espaço para “oficinas, palestras, enfim, formação cultural do público e dos que trabalham com arte na educação nas escolas do DF”.

Ele recomenda que o MAB também desenvolva processos criativos com os artistas da cidade, não desempenhando somente o papel de expor o acervo corretamente ou abrigar mostras temporárias vindas de fora”.

“Se o acervo não dialogar com os artistas dentro e fora de Brasília, ele perde sua força histórica e atual de informar e instigar o público sobre sua grande importância fomentadora de ideias propositivas e provocativas”.

Formado em Desenho e Plástica e Arquitetura e Urbanismo na UnB, Ralph Gehre (foto) acompanha outros artistas no endosso à qualidade do acervo do MAB: “inclui obras muito importantes, muito significativas, de arte contemporânea brasileira e, nesse sentido, sou um entusiasta de sua formação e incremento”.

Gehre se junta também nos votos de que a reinauguração do museu – que conheceu muitos fechamentos e reaberturas ao longo de sua história – seja definitiva. “Espero que o MAB prevaleça, permaneça, exista, aconteça de verdade e consiga implementar um trabalho que implique em uma política curatorial, cultural e um projeto educativo”.

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