Unplugged (Desconectado)
Rio de janeiro

Unplugged (Desconectado)

Unplugged (Desconectado) Rio de janeiro

  Henrique Pinheiro * 

    * Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor.  

  Este artigo é sobre o décimo quarto capítulo de meu livro, Crônicas de um Mercado sem Pudor. 

  No capítulo 13, eu lembrei de quando a Prudential Securities foi adquirida pelo gigantesco Wachovia,  um banco em plena expansão.  

  E, de como o Wachovia demorou para enviar um executivo ao Rio de Janeiro.  

  O nome Wachovia era de um rio na Carolina do Norte. Em um dia, aparentemente comum, fomos convocados para uma reunião extraordinária.  

 Era uma sexta-feira de junho de 2007.
A reunião foi marcada em um hotel no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Logo na chegada, algo soou estranho: vans estavam estacionadas para nos transportar. Todos deveriam ir juntos. Ao mesmo tempo.
  Achei esquisito, mas obedecemos.
  Dentro da van, risadas nervosas e brincadeiras forçadas tentavam aliviar o clima. As hipóteses circulavam em voz baixa: teria o banco comprado alguma instituição no Brasil? Deixaríamos de ser apenas um escritório de representação? Ou o escritório de advocacia simplesmente lavara as mãos?
  A viagem foi curta. Nosso escritório também ficava em Botafogo.
Ao descer da van, seguimos juntos para uma sala de reuniões. A mesa, em formato de um grande “U”, nos obrigava a olhar todos para o mesmo ponto: um telão ainda apagado.
  Notei a presença de pessoas estranhas. Não eram do escritório. Quando todos se sentaram, o telão foi ligado. Surgiu uma senhora de semblante calmo, sorriso treinado, que nos saudou com um “Good afternoon”. Era a CEO do Wachovia.
 Sem rodeios, anunciou:
— Por recomendação dos nossos advogados, o escritório de representação será unplugged ( desconectado)
  A palavra ecoou na minha cabeça. Unplugged. Para mim, soava como um estilo musical, algo acústico, simples, quase elegante. Mas os rostos ao redor diziam outra coisa. Aquilo não era um concerto. Era uma marcha fúnebre.
  Os estranhos se levantaram e se apresentaram: advogados do escritório contratado pelo banco. A CEO desapareceu da tela. Em português direto, veio o recado final.
  O Wachovia estava fechando o escritório de representação no Brasil. Um a um, seríamos chamados para assinar os documentos de desligamento. Quem sobrasse na sala ouviria uma proposta.
  Éramos cerca de cinquenta pessoas entre consultores financeiros e administrativos.
  A seleção não era aleatória. Os cinco que permaneceram eram os consultores que detinham as maiores carteiras de clientes. Não havia espaço para romantismo. Americanos são pragmáticos: convidaram quem lhes convinha.
  Os demitidos voltavam em silêncio para a van estacionada à porta do hotel.
  Aos cinco restantes — entre eles eu — foi feita a proposta: continuar no Wachovia, agora em Montevidéu, Uruguai. Quem tivesse interesse deveria se apresentar na segunda-feira, às oito da manhã, para conhecer os termos.
 Voltamos para a van em absoluto silêncio.
 Ao chegar ao escritório, entendi definitivamente o significado de unplugged. Dois seguranças guardavam a porta. Lá dentro, tudo havia sido desmontado enquanto estávamos na reunião. Telefones, computadores, papéis — nada restara.
 Nossos pertences pessoais estavam em caixas individuais.
 O destino da maioria era a casa. O de cinco, uma decisão urgente a ser tomada em um fim de semana.