Maria Thereza Goulart: quando o glamour deu lugar à coragem
Rio de janeiro

Maria Thereza Goulart: quando o glamour deu lugar à coragem

Maria Thereza Goulart: quando o glamour deu lugar à coragem Rio de janeiro
Henrique Pinheiro *
 * Economista e produtor executivo do documentário Terra Revolta-João Pinheiro Neto, autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor, filho de João Pinheiro Neto, ex-ministro de João Goulart.
 Maria Thereza Goulart parecia viver o sonho de uma geração. Bonita, elegante, casada com um homem de futuro promissor, tornou-se a mais jovem primeira-dama da história do Brasil. Mas a História costuma mudar destinos sem pedir licença.
Quando Maria Thereza Fontella conheceu João Goulart, tinha apenas 14 anos. Era uma adolescente do interior do Rio Grande do Sul, cuja beleza já chamava a atenção de todos.
Jango tinha 31 anos. Era fazendeiro, empresário e uma das grandes promessas da política brasileira. Filho de Vicente Goulart, cuja família mantinha estreita amizade com Getúlio Vargas, cresceu vendo o futuro presidente da República hospedar-se com frequência na estância da família, em São Borja. Política e poder faziam parte do seu cotidiano desde cedo. Anos depois, ele e Maria Thereza se casariam. Ela tinha apenas 19 anos; ele, 36.
Era comum, naquela época, jovens muito bonitas se casarem com homens mais velhos, de famílias influentes e futuro promissor. Eram preparadas para formar uma família, criar os filhos e acompanhar os maridos em suas trajetórias.
Tudo indicava que aquele seria o destino de Maria Thereza.

Quando Jango assumiu a Presidência da República, ela tornou-se, aos 23 anos, a mais jovem primeira-dama da história do Brasil. A imprensa internacional a comparava a Jacqueline Kennedy e Grace Kelly. Vestia modelos exclusivos criados por Dener, o mais célebre costureiro brasileiro da época. O Brasil conheceu sua elegância.
Mas a História mudou tudo.
Em 1964, o golpe destruiu, em poucas horas, tudo aquilo que haviam construído.
Maria Thereza deixou o Brasil levando apenas uma pequena mala. Ficaram para trás a casa, os amigos, os vestidos exclusivos de Dener, os objetos pessoais, as lembranças e uma vida que parecia perfeita. O conto de fadas terminava ali.
Começava uma existência para a qual ninguém está preparado.
No exílio não havia bailes, recepções ou fotógrafos. Havia saudade, medo, incerteza e a difícil missão de proteger os filhos enquanto o marido carregava o peso de ter sido deposto e impedido de voltar ao próprio país.
Pouco se fala sobre esse período.
Enquanto o mundo via João Goulart como o presidente deposto, era Maria Thereza quem sustentava a família no silêncio. Coube a ela transformar a dor em serenidade, esconder as próprias angústias para amparar o marido e manter viva a esperança de um retorno que nunca aconteceria.
Pouco antes de morrer, em dezembro de 1976, Jango encontrou-se pela última vez com meu pai, João Pinheiro Neto. Eram amigos desde os tempos das Reformas de Base.
Na despedida, fez uma confidência que meu pai jamais esqueceu:
“Maria Thereza vai voltar viúva e com dois filhos.”
A frase, dita poucas semanas antes de sua morte, impressiona até hoje. Como se, de alguma forma, Jango pressentisse o próprio destino.
E foi exatamente o que aconteceu.
Maria Thereza retornou ao Brasil viúva, trazendo consigo os dois filhos, João Vicente e Denize. Voltava sem o homem que amava, mas com a responsabilidade de reconstruir a vida da família e preservar o legado de João Goulart. Viveu o luto enquanto as dúvidas sobre as circunstâncias de sua morte permaneceram por décadas.
Foi nesse momento que a jovem primeira-dama desapareceu para sempre. Em seu lugar surgiu uma mulher de extraordinária coragem.
Se a ditadura tentou apagar a memória de João Goulart, encontrou em Maria Thereza sua mais fiel guardiã. Preservou documentos, fotografias, cartas e lembranças que hoje ajudam a contar uma parte importante da história do Brasil. Durante muitos anos fez isso praticamente sozinha, sem reconhecimento e sem sequer receber do Estado o tratamento devido a uma ex-primeira-dama. Essa injustiça só começou a ser reparada décadas depois.
Costumamos lembrar dos presidentes, dos ministros e dos grandes líderes políticos. Muito menos lembramos das mulheres que caminharam ao lado deles e que, quando tudo desmoronou, encontraram forças para manter suas famílias de pé.
As fotografias eternizaram a beleza de Maria Thereza.
A História eternizou sua coragem.
A menina de São Borja que um dia encantou o Brasil como primeira-dama terminou cumprindo uma missão muito maior: tornar-se a guardiã da memória de João Goulart e mostrar que, por trás dos grandes acontecimentos da História, existem mulheres cuja força quase sempre permanece invisível.
Porque, às vezes, a maior elegância não está nos vestidos de Dener.
Está na coragem de seguir em frente quando a História nos obriga a deixar tudo para trás.